Sombra: ‘O Estádio 97 transformou a forma de debater futebol no rádio’



Em qualquer lugar do trânsito de São Paulo, basta abrir a janela para ouvir diversos rádios sintonizados no Estádio 97, programa esportivo há 18 anos no ar na emissora Energia 97 e líder de audiência no segmento. No comando está Hilton Malta. Ou melhor, Sombra, o apelido gravado até mesmo no cartão de visitas. Desde a estreia, o radialista comanda uma equipe que, de segunda a sexta, se reúne no estúdio para falar de futebol como se estivesse numa mesa de bar. Sem roteiro, cada um debate o seu clube, sempre num ambiente de provocação e irreverência. No papo abaixo, Sombra conta como o programa foi concebido, a formação do time e sua paixão pelo São Paulo. Uma jornada que começou aos 11 anos de idade, quando o garoto que escrevia o nome das músicas que tocavam na rádio num caderno sabia exatamente onde desejava chegar.

Sombra comanda o debate no Estádio 97, programa sobre futebol que lidera a audiência entre as rádios de São Paulo

Sombra comanda o debate no Estádio 97, programa sobre futebol que lidera a audiência entre as rádios de São Paulo

2 Pontos: Sombra, de onde surgiu a ideia de lançar um programa esportivo com o viés de torcedor?

Sombra: A ideia foi minha, mas claro que várias pessoas participaram deste processo. No final da década de 90, a economia não estava legal e a Energia 97, pior ainda. Em função disso, a rádio era muito assediada por várias pessoas que queriam implementar projetos dentro da grade de programação. Uma delas era o Éder Luiz, que fez a proposta de fazer o que ele hoje faz na Transamérica aqui na Energia 97. Mas o Zé e o Fernando, os donos da rádio, odeiam futebol. E certa vez a gente estava almoçando num restaurante discutindo se topava a parceria e o Zé falou que não queria este formato convencional de jornalismo esportivo na rádio. Aí eu virei para ele e disse: “Por que a gente não coloca torcedor falando no ar?”. E o Zé respondeu: “Porra, então tocam vocês mesmo isso”. Dois dias depois, estreava o Estádio 97.

E agora já são 18 anos…

Pois é, de uma conversa informal num almoço para 18 anos de estrada.

E como você tomou a frente do programa?

Eu trabalho na rádio desde 94, mas em 99 eu assumi também a coordenação artística. Foi um movimento natural assumir a liderança da concepção e formação do programa.

Como foi formada a equipe original do Estádio 97?

A formação original tinha só três pessoas. Eu como torcedor do São Paulo, o Zé Paulo defendendo o Corinthians e o Lélio Teixeira pelo Santos. O palmeirense era representado pelo efeito sonoro de um porquinho, que a gente batizou de Juvenal. No final de 99, o Domenico Gatto entrou para o time representando o Palmeiras. No início, foi um processo de muitas alterações, até formar, em 2000, o time base que está até hoje. Aí entraram o Mano, ouvinte corintiano que foi convidado para fazer parte do programa, o santista RG, o Benjamin Back.

Você enxerga o Estádio 97 como um programa de vanguarda?

Com certeza. Na época não existia nada assim. Todas as rádios tinham aquele modelo padrão, uma extensão do que já se via na TV.

E o formato de vocês influenciou os concorrentes?

Não só na rádio. A linguagem irreverente e espontânea que a gente adotou lá atrás hoje se vê em diversos programas na TV, inclusive. É só lembrar do programa do Milton Neves da hora do almoço, que tinha um pouco deste formato informal e integrantes representando cada time. Eu não tenho dúvida que o Estádio 97 puxou toda esta transformação.

Você imagina o formato do Estádio 97 na TV?

Se o Estádio 97 um dia fosse para a TV, ele seria a morte do programa na rádio. A TV é desgastante, exigente. Apesar de nosso programa ser transmitido pela internet hoje, nada é como o rádio. O ouvinte imagina aquilo que lhe convém, o que é um composto muito importante. Na Energia 97 nunca houve uma cobrança por pontuação de Ibope. A audiência veio naturalmente.

Mas já houve algum convite?

Houve uma tentativa de uma emissora de TV aberta, mas eu barrei logo de cara. Se avançasse isso, certamente eu não estaria aqui hoje falando sobre os 18 anos do programa. Nunca foi minha praia.

 

Cada integrante do Estádio 97 representa um time de São Paulo. em um debate marcado pela espontaneidade

Cada integrante do Estádio 97 representa um time de São Paulo. em um debate marcado pela espontaneidade

Consegue puxar de memória o programa mais difícil que você fez?

Tiveram alguns bem difíceis. Uma vez veio Zé do Caixão e o Portuga, um ex-integrante, começou a fazer imitações dele. O Zé do Caixão ficou bravo e o programa ficou tenso. Em outra ocasião, o Silvio Luiz estava aqui e o mano perguntou se ele tinha tomado um chute na bunda do Milton Neves. E aí ele se irritou profundamente, bateu boca, ameaçou abandonar o programa. Este foi o pior.

Em diversas situações, vocês são críticos em relação aos times. Qual o impacto disso dentro dos clubes?

No começo, vira e mexe algum assessor ou dirigente ligava aqui para contestar alguma opinião, o famoso “não é bem assim”. Agora não ligam mais, porque já perceberam que toda a equipe é livre para expressar sua opinião e que, de certa forma, representamos o tom da corneta do próprio torcedor.

Com os boleiros é diferente?

É outra pegada, eles se sentem bem mais à vontade. Tudo depende também de quem vem. Mas eu não gosto muito de trazer jogador. Em relação aos atuais, as assessorias já nem permitem que venham. Eles ficam com medo do que vai ser falado, da falta de trava e tudo mais. A gente vai perguntar ao boleiro se um diretor é mala, se o companheiro dá ‘migué’, então eles não deixam ninguém vir. Mas não poderia ser diferente. Ou a gente pergunta como torcedor, ou melhor nem fazer.  Ex-jogador é mais fácil, mas você não conta nem uns dez que dão um caldo. Tem vários que são ídolos, mas na hora da entrevista não rola.

Em algum momento você esquece que está no ar e se imagina numa mesa de bar discutindo futebol?

Esquece. Uma hora até começa a falar certos palavrões, que você só imagina falando fora dali. Isso acontece direto. Às vezes surge uma discussão que dura 20 minutos e você se esquece que aquilo é um programa de rádio, que você tem um roteiro comercial a cumprir.

Existe reunião de pauta para o programa do dia?

Nunca. As ideias vão surgindo na hora, uma emenda na outra e a coisa vai fluindo. E o ouvinte manda mensagem, participa do programa e você vai moldando o papo. A gente não fica engessado a um roteiro.

E sua paixão pelo São Paulo, de onde surgiu?

Eu comecei a ter noção sobre futebol em 73. Meu pai gostava da Lusa, mas sempre me falava que eu ia torcer para o São Paulo porque era o clube com os melhores dirigentes, o maior estádio particular do mundo. Ele sempre associou o clube à competência e idoneidade. Sou grato demais a ele. Imagina hoje ser torcedor da Portuguesa? (risos)

E esses valores hoje…

Hoje é completamente o inverso, algo que me machuca demais. Os últimos anos foram muito difíceis como torcedor do São Paulo. Não foi o uniforme que me fez torcer, por ser filho de jogador, nada disso. Foi por causa desses valores que meu pai dizia. E quando você vê que o São Paulo hoje não é um time transparente, adota políticas questionáveis e acontecem situações lamentáveis dentro do clube, até mesmo agressões físicas entre dirigentes, a conclusão é de que o clube virou um microcosmo da sociedade política brasileira.

Enxerga alguma luz no fim do túnel tricolor, após mais um ano bem decepcionante?

Não, não vejo. É só ver a manifestação dos dirigentes atuais, o nível é muito ruim. E tudo indica que eles continuarão lá por um bom tempo.

Você vai a jogos no Morumbi?

Esse ano eu não fui em nenhum.

Por qual razão?

Tempo e ânimo. Eu não consigo desassociar o extra-campo do futebol. O São Paulo é hoje um negócio que traz muita dor. E ainda tem as questões de logística e segurança para ir ao estádio, que nunca são simples.

Você é formado em quê, Sombra?

Formado em porra nenhuma. (risos)

Nunca te fez falta?

Nunca. Quanto eu tinha 11 anos de idade, eu botei na cabeça que ia ser radialista.
Na vida real, eu estudava e imagina que faria Engenharia ou Arquitetura, mas as coisas foram mudando. Eu tinha um vizinho que era dono da antiga Rádio Mulher, o Toninho Montoro. Ele me dava muitas dicas sobre a profissão, dizia eu curso eu deveria fazer, avisava que eu não ganharia dinheiro com isso. Aí eu fiz o curso de locução no Senac em 87. No ano seguinte, eu ia prestar vestibular, mas aí tudo mudou.

O que aconteceu?

Uma história absurda me levou às portas de uma emissora de rádio. Em 85 eu tive Síndrome do Pânico, na época em que ninguém sabia o que era isso. Eu sempre fui um cara responsável, estudava muito, me cobrava demais. Acho que isso me trouxe um estresse muito forte. Fiquei um ano longe dos estudos até me recuperar. Eu gostava de fazer som para os amigos e ia atrás de fitas com músicas estrangeiras, que praticamente não existiam nas lojas. Aí me indicaram um lugar em São Paulo chamado DJ Clube, que vendia fitas dessas músicas importadas. Eu fui lá e o dono do lugar me ofereceu um emprego para lavar discos e organizar as fitas. Eles mandavam os vinis para um programa da rádio Bandeirantes chamado ‘Sweet Love’ e eu tinha que lavar e separar tudo. Nem queria saber quanto ia ganhar, aceitei na hora.

E como você passou de lavador de discos para dentro de uma emissora de rádio?

Um dia apareceu lá o Julinho Mazzei, locutor famoso na época e filho do Júlio Mazzei, que era preparador físico do Pelé. Ele apareceu lá para pegar uns discos. Eu reconheci a voz, fui falar com ele, mostrar minhas fitas. Aí ele perguntou se u não queria levar os discos para ele no sábado à noite, quando rolava o programa que ele apresentava na Bandeirantes FM. Foi mais um passo para eu mergulhar neste mundo. Adeus, vestibular.

E onde foi sua primeira oportunidade profissional na rádio?

Foi na Jovem Pan, em 89. O Mazzei me levou para ser produtor dele lá. A direção da casa achou que eu escrevia bem e me colocaram como assistente de promoção da rádio. Em poucos meses eu fiz de tudo lá. Eu operei mesa, fiz programação musical. Eu estava na Disneylândia. Ainda mais numa rádio do tamanho da Jovem Pan. Acabei fazendo uma faculdade de rádio dentro da rádio. Foi o melhor aprendizado que eu poderia ter na carreira.

Da Jovem Pan até a Energia 97, por onde você também passou?

Fui coordenador e programador de promoção na Manchete FM e na Nova FM e, em 94, cheguei na Energia nesta área de atuação também. Anos depois, assumi aqui a direção artística da rádio.

Como é sua rotina na rádio?

Eu chego às 10h e faço a programação musical da rádio ao longo do dia. Também cuido da parte artística da Energia, pois temos diversos outros produtos associados, como cruzeiros temáticos, promoções, eventos, shows. O Estádio 97 é só uma parte do meu trabalho, uma espécie de ‘pop up’ do meu dia.

Como você enxerga o Estádio 97 daqui 18 anos?

Primeiro eu me enxergo fazendo o programa daqui 18 anos. Nós temos que estar sempre atentos àquilo que pode mudar, até porque um dia nós fomos responsáveis por uma grande mudança na rádio. Mas a roda não pode ser inventada duas vezes. O que temos no ar é um debate, que antes era feito só por jornalistas. Nós mudamos isso e colocamos os torcedores. Em cima disso, o que pode melhorar ou piorar é o conteúdo das pessoas que participam do debate. O melhor do Estádio 97 é justamente a espontaneidade que os integrantes podem oferecer ao público.

Esporte e humor sempre caminharam juntos no Estádio 97?

O Estádio não nasceu para ser um programa de humor, nasceu para ser um programa bem-humorado. Quando você se coloca como um produto humorístico você tem o complicador de fazer as pessoas rirem o tempo todo. E a base do Estádio 97 não é fazer rir, e sim criar uma identificação imediata com o torcedor no trânsito nos ouvindo. Linguagem irreverente, cada um defendendo o seu time.

Tem planos de colocar uma mulher no debate?

Tenho, mas ainda não achei a pessoa certa. Um flamenguista também está nos planos. Pode ser de outro time também, mas quero alguém que represente o futebol do Rio e o ‘carioquês’ em sua essência.

O que você gosta de fazer quando larga o microfone?

Eu adoro filmes e séries. E adoro supermercado e adoro comer. Minha vida fora da rádio é isso.

Hoje você está onde se imaginou quando era um garoto de apenas 11 anos?

Eu atingi aquilo que eu imaginei lá atrás e não quero nada além disso. Estou feliz da vida e me sinto totalmente realizado. Com 11 anos, eu tinha um caderno universitário onde eu anotava todas as músicas pop que eu ouvia na rádio. Anotava porque eu tinha para mim que um dia eu precisaria saber o nome delas. E hoje o que eu faço é justamente isso.



  • Kleber Winchester

    SENSACIONAL AMIGONS! Ouço diariamente desde 2000 tinha 14 anos na época hoje tenho 30 Faz parte da minha família. Vamos São Paulo Abs rumo

  • Luciano da Silva Pereira

    Hoje a concorrência vai na aba, o Estádio fez e faz escola, lidera e não é atoa, uma conversa irreverente sobre futebol e outras coisas, estão de parabéns!

MaisRecentes

Nevasca na NFL: veja (ou ao menos tente) como foi o jogo entre Bills e Colts



Continue Lendo

Sucesso de Raí como diretor será uma vitória do futebol brasileiro



Continue Lendo