De Coutinho à alcateia de Tite: 5 pontos após a classificação do Brasil



O caminho até as oitavas de final da Copa do Mundo não foi fácil para a seleção brasileira, roteiro que se repetiu com Argentina, Espanha e Portugal – sem falar na Alemanha, que terminou como lanterna de um grupo que tinha a Suécia (classificada na repescagem contra a Itália) e a Coreia do Sul. Mas o Brasil passou invicto e dando sinais de evolução, mesmo sem brilho e ainda com problemas a resolver no time titular. Contra a Sérvia, tirando os 15 minutos iniciais do segundo tempo, o Brasil teve o controle da partida e se portou de forma mais “vertical”, mais veloz, mais objetivo a caminho do gol adversário. Abaixo, um apanhado do que saltou aos olhos após a fase de grupos.

Divulgação CBF

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Coutinho, o craque

As comparações já surgiram: Coutinho vem exercendo o papel que Rivaldo ocupou nas Copas do Mundo de 98 e 2002, quando foi o melhor jogador da seleção. Até agora, Coutinho é disparado o jogador mais valioso deste time, contribuindo com dois gols e um assistência pornográfica. Mas ele vai além das estatísticas: o camisa 11 não se desespera, tem o equilíbrio necessário para reger as ações ofensivas do Brasil e consegue quebrar as linhas de marcação com toques rápidos e uma noção espacial assustadora. Sem a magia de Coutinho, a eliminação na fase de grupos poderia ter se materializado.

Neymar, o imprevisível

Após dois jogos de mais chilique do que bola, Neymar fez ontem sua melhor partida na Copa. O primeiro arranque com a bola no pé parece ter evoluído, e o atacante conseguiu ser mais incisivo para criar chances de gol e evitar a toda hora o contato físico com os adversários. Ainda prende demais a bola e faz jogadas sem sentido, como tentar driblar cinco adversários numa linha horizontal infinita e brecando as ações ofensivas, mas ao menos se portou contra a Sérvia de forma mais tranquila, o que ajudou o time a não entrar em parafuso emocional nos momentos mais delicados da partida.

As lesões

Pode ser só uma infeliz coincidência, mas as lesões no elenco de Tite se tornaram um verdadeiro pesadelo durante a Copa: Renato Augusto e Fred sofreram já nos treinos, Neymar teve seus sustos, Douglas Costa, Danilo e agora Marcelo foram baixas importantes. Excesso de cargas nos treinos? Difícil responder se baseando apenas nas falas de familiares que estão acompanhando os jogadores por lá, mas a reincidência vai aumentar a cobrança por explicações de Tite e sua comissão técnica. E são as lesões de titulares que levantam dúvidas sobre as reposições planejadas na hora da convocação.

Thiago Silva, o redivivo

Para a torcida, Thiago Silva ressuscitou nesta Copa do Mundo. A impressão é torta, afinal, o zagueiro recebeu um peso desproporcional após o vexame do 7 a 1 em que nem presente estava. Mas o choro descontrolado contra o Chile em 2014, as presepadas na Copa América no ano seguinte e o hiato de dois anos sem vestir a camisa amarela colocaram Thiago Silva em xeque. As críticas aumentaram de tom ao ganhar a vaga de Marquinhos antes mesmo da Copa começar. Entretanto, após três partidas, o zagueiro provou que não está lá a passeio e que fez valer a confiança de Tite. Na vitória contra a Sérvia, como capitão, uma partida monstruosa: acertou todas as antecipações, levou a melhor nas divididas, roubou bolas importantes e ainda foi coroado com o gol de cabeça. Os queixumes foram dissipados.

Tite e suas fábulas

Na véspera da partida contra a Sérvia, Tite contextualizou a lesão de Douglas Costa desta maneira: “A matilha precisa do lobo, e o lobo precisa da matilha. O conjunto de lobos não é matilha, é alcateia”. O trabalho do treinador à frente da seleção é muito bom e não pode ser diminuído por conta da oscilação na fase de grupos da Copa, mas os discursos cansam. São fábulas, metáforas e frases desconexas soltas com a voz empostada, como num sarau de autoajuda montado na sala de coletiva de imprensa. Ontem, após a vitória, Tite revelou: “Hoje eu vou tomar caipirinha”. Eu prefiro esta versão – simples, bem-humorada e sem as amarras da verborragia.