O peso da ausência de Daniel Alves na Copa do Mundo



Daniel Alves se lesiona durante a final da Copa da França, que terminou com a vitória do PSG sobre o Les Herbiens (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

Daniel Alves se lesiona durante a final da Copa da França, que terminou com a vitória do PSG sobre o Les Herbiens (Foto: FRANCK FIFE / AFP)

por Murillo Moret *

Posição ingrata, essa de lateral. Ser goleiro é difícil – seu objetivo determina diretamente no resultado do jogo -, mas ser lateral vai além disso. É uma escolha por uma carreira medíocre mesmo que esta passe longe de ser. É viver sob a desconfiança de ser perfeito ou quase isso. De atacar e defender com a mesma profusão/proficiência: qualquer parâmetro desnivelado e o jogador já não serve mais.

A regra é de impossibilidade de ser bom em tudo. “Marcelo ataca bem, mas defende mal”. “Filipe Luís é bom marcador, mas não sabe atacar”. Alex Sandro é um Marcelo piorado”. “Jordi Alba é como Marcelo”. “Ricardo Rodríguez é só um batedor de faltas”. Philipp Lahm e Maicon, no auge, entre 2008 e 11, eram as exceções contemporâneas que confirmavam a falácia. Marcelo, porém, é um marcador eficiente, sim; e Filipe é um bom cruzador e um excelente construtor pela esquerda.

E há Daniel Alves, o lateral capaz de mexer com qualquer ambiente. Para o bem ou para o mal. Não tem neutralidade quando ele é o assunto.

O fora de campo precisa ser tema, também: de muitas bolas foras nas declarações como uma leve ironia comparativa com os tantos cruzamentos errados por jogo e pelo fato de causar incômodo em parte das torcidas dos ex-clubes, Barcelona e Juventus.

O profissionalismo para o jogo, contudo, jamais foi um ponto contra: a lesão no joelho, que o impedirá de disputar o Mundial na Rússia, afeta aquele que mais capitaneou a Seleção durante o trabalho de Tite. Neymar carrega a esperança; Alves carregava a liderança.

O camisa 2, de qualidades e deficiências latentes, será um desfalque importante. Inegavelmente. O trabalho dele, quase como um meia na Seleção para articular com os mais próximos (seja Fernandinho, Paulinho ou outro), estava redondo com a Amarelinha. O equivalente é Fágner, reserva imediato que joga de forma parecida no Corinthians: auxiliando pelo meio e fechando a linha defensiva.

Entre as outras opções, Rafinha é muito mais um lateral-lateral, que busca o fundo para o cruzamento, enquanto Danilo constrói pouco. Fabinho, lembrado imediatamente nas redes sociais, não joga ali há duas temporadas. O próprio Tite vê o jogador como um volante. Seria como o torcedor parabenizar o técnico por esta convocação por fazer algo semelhante a Dunga, execrado por isso – levar Michel Bastos, ponta por anos, para ser lateral numa Copa.

Lamento que a lesão tão às vésperas do torneio tenha impedido que Alves lutasse pelo título que lhe falta. Justo ele, o maior campeão da história. Mas depois de um ano de Juventus, no qual teve seus melhores momentos ao se afastar da zona defensiva, e outro de PSG, falhando justamente na saída de bola contra o Real Madrid, prefiro acreditar que o bônus é maior que o ônus.

* Jornalista na torcida por Juventus e Nuggets. Não sigo as regras da Fifa nem gosto de filmes com Adam Sandler.