Da euforia às lágrimas: a Copa do Mundo aos olhos de Matheus



Aos 41 minutos do primeiro tempo, o placar já mostra a vantagem de dois gols para a Bélgica. A seleção brasileira está espalhada pelo gramado, correndo de forma irracional e oferecendo todo o espaço do mundo para o contra-ataque. Há lembranças de 2014, há um silêncio nas arquibancadas, há uma certeza de que não haverá equilíbrio emocional para reverter o resultado.

Aos 41 minutos do primeiro tempo, pisca uma mensagem no celular. O wifi rateia, mas logo exibe a imagem de Matheus, 5 anos, chorando no colo da mãe. “Alguém aqui não está sabendo lidar com a derrota”, diz ela. Eu levanto da minha cadeira, fico olhando atentamente para aquela foto e não sei como reagir. Na redação em todos os jogos da Copa, não tive a oportunidade de assistir a nenhum jogo com ele. E a distância nesta hora parece cruel demais.

É a primeira Copa do Mundo de fato de Matheus. Do álbum de figurinhas à tabela do Mundial obtida na pizzaria do bairro, ele se preparou para este momento. A cada dia de jogo do Brasil que eu saia de casa para o trabalho, deixávamos registrado o bolão particular com quatro integrantes: eu, ele, a irmã mais velha e a mãe. E ele me ligava a cada fim de jogo para dizer suas impressões, quem ele achou que tinha jogado bem, como ele sabia que o gol sairia. Após a vitória contra a Costa Rica, Matheus discou sozinho o número do meu celular e, assim que atendi, lá estava ele imitando o jargão do Galvão Bueno.

No intervalo de ontem, eu que liguei para tentar animá-lo, mas ele se recusou a falar. Retomei o trabalho tentando inutilmente tirar aquela cena da cabeça. O choro, a tristeza tão genuína, a frustração diante de uma derrota que ele, em seu universo particular, jamais acreditou que poderia acontecer. Todo aquele retrato me fez lembrar da Copa de 90, a primeira que tenho lembranças, quando Caniggia driblou Taffarel e eu, inocentemente e sem dominar a matemática por completo, disse a minha mãe: “Eu já tenho 8 anos e nunca vi o Brasil ser campeão da Copa”.

Assim que girei a chave da porta de casa, ele pulou do sofá e veio me abraçar. Eu agachei, fiquei na sua altura e ele apertou o meu pescoço com força. “Pai, no final quase que deu para empatar”. Meus olhos marejaram e expliquei a ele que não era possível vencer sempre, um ensinamento tão obrigatório quanto inútil para uma criança desta idade. Os vestígios ainda estavam lá: o placar final desenhado pela irmã em sua perna, a tabela da Copa atirada no chão da sala, a camisa do Brasil virada do avesso.

Até o fim da noite, Matheus já estava bem e anunciando sua torcida pela França nesta reta final de Copa do Mundo. Ao vê-lo na cama de olhos fechados, fiquei imaginando os sonhos que passavam por aquela cabecinha. Nos próximos dias, ele provavelmente terá esquecido do placar e as lágrimas escorridas estarão debaixo do tapete do seu inconsciente. A certeza da vitória Matheus nunca terá, mas a paixão que o futebol despertou nele estará ainda mais viva daqui quatro anos. E cedo ou tarde, estarei lá para abraçá-lo, independente do placar final.