No ‘escândalo da prancheta’, Rogério Ceni é mais vítima do que vilão



'Quem sou eu para brigar com o maior ídolo do São Paulo?'. A declaração de Cícero é tão simbólica quanto problemática (Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net)

‘Quem sou eu para brigar com o maior ídolo do São Paulo?’. A declaração de Cícero é tão simbólica quanto problemática (Foto: Érico Leonan / saopaulofc.net)

Durante o intervalo no clássico entre São Paulo e Corinthians, Rogério Ceni entrou enfurecido no vestiário, já que o seu time havia levado um gol nos acréscimos do primeiro tempo. Chutou uma prancheta, que acertou o volante Cícero. O jogador não gostou e a turma do “deixa disso” interviu para evitar uma discussão ainda maior. A informação foi dada em primeira mão pelo Bate-Bola Debate, programa da ESPN Brasil.

Nas horas seguintes, jogadores (incluindo o próprio Cícero) concederam entrevista para colocar “panos quentes” e negar a gravidade do entrevero. Rogério Ceni até o momento não se pronunciou, assim como Leco, presidente do clube.
Brigas no vestiário são mais comuns do que alguns torcedores possam imaginar. Mesmo em time que está ganhando, longe de qualquer vestígio de crise. Foi assim, por exemplo, com o Palmeiras de 2016, quando Rafael Marques e Cuca discutiram após uma partida em casa contra o Coritiba. O alviverde já estava na liderança do Campeonato Brasileiro e o episódio não chegou nem perto de estremecer o ambiente.

A diferença é que o São Paulo vive uma crise provocada pelo mau futebol demonstrado em campo e pelas três eliminações seguidas – Campeonato Paulista, Copa do Brasil e Sul-Americana -, além da estreia com derrota para o Cruzeiro no Brasileirão. E na ponta do iceberg está Rogério Ceni, o maior ídolo da história do clube e que foi alçado à posição de treinador pela diretoria, que precisava de um trunfo em meio à turbulência política que paira sobre o Tricolor desde que Carlos Miguel Aidar renunciou à presidência cercado por denúncias de corrupção.

Existia a esperança – nutrida por diretoria, jogadores e torcida – de que a identificação de Ceni com o clube bastaria para acelerar o processo de formação do treinador que, à época, ainda estava realizando cursos de aperfeiçoamento pela Europa. O início até animou, mas não servia como base, já que a pré-temporada e as primeiras rodadas do Campeonato Paulista servem como parâmetro de avaliação. E as derrotas começaram a surgir, acompanhadas por um desempenho muito abaixo do que se imaginou na virada do ano.

Rogério também não facilitou. A cada revés, despejava “estatísticas vazias” para defender o esquema adotado e a atuação de seus jogadores. Fez o recorte que lhe favorecia, sem que necessariamente tivesse algum sentido. Os números jogados à revelia não traziam o retrato do que se via em campo.

Entretanto, não é justo que o treinador carregue solitariamente um fardo que deveria ser dividido. A partir do momento que vazam situações de vestiário para a imprensa, não há dúvidas de que alguém busca sabotar o seu trabalho. Jogador, assessores, comissão técnica, enfim, alguém do grupo está levando informações internas aos veículos de comunicação, riscando mais um fósforo dentro de um ambiente já longe da calmaria. E não é a primeira vez. O mesmo aconteceu no caso do fair play de Rodrigo Caio, na mesma partida contra o Corinthians, quando foi revelado que o treinador contestou a atitude do zagueiro diante de todo o grupo.

A missão da diretoria agora é identificar e afastar a “laranja podre” e dar respaldo ao treinador. Caso contrário, em menos de seis meses, jogará por terra uma aposta que já era arriscada por si só.  ‘Quem sou eu para brigar com o maior ídolo do São Paulo?’. A frase de Cícero na coletiva de hoje, amenizando o acontecimento, é tão simbólica quanto problemática. Rogério Ceni não pode ser imune a críticas e questionamentos, e sua condição de ídolo não garante que será um técnico de sucesso. Mas, sem a lealdade das pessoas que hoje fazem parte do clube, sua jornada, tão cercada de expectativas, pode se tornar mais um triste capítulo de um São Paulo à deriva.



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