Vicente Calderón: uma relação umbilical com os colchoneros



Por Rafaela Braga *

O que você faria se nas paredes do estádio do seu time, que está próximo da demolição, estivessem depositadas as cinzas de sua esposa?

Em “El Paseo de los Melancólicos”, curta metragem dirigido por Nacho Casado, Vicente, um característico e parrudo colchonero, luta dia e noite para que a cripta depositada no espaço memorial do Vicente Calderón também seja transferida para o novo Estádio Olímpico.

Uma boa metáfora para o que todo rojiblanco, simpatizante ou qualquer pessoa em sã consciência que reconheça a grandeza do Atlético — e de sua casa – está sentindo nesse momento, mas não consegue dizer: há coisas intransferíveis, intransponíveis e intransmissíveis, e a relação quase umbilical dos colchoneros com o estádio é uma delas.

O Vicente Calderón não tem um memorial hightech como o Santiago Bernabéu, nem é visitado por centenas de turistas asiáticos como o Camp Nou. Mas tem o que nenhum dos outros dois possui: uma regência própria. A regência do Calderón é tão forte e imponente que facilitou para os instrumentistas (torcida) e para o maestro (Cholo Simeone) tocarem juntos as mais improváveis sinfonias nos pelo menos últimos quatro anos.

A relação umbilical entre os colchoneros e seu estádio (Foto: Acervo Pessoal)

A relação umbilical entre os colchoneros e seu estádio (Foto: Acervo Pessoal)

Veja bem, não é uma questão de ser contra as Arenas, é apenas uma questão de ser a favor de tudo que tem que deixar de existir para que elas existam. Me pergunto, por exemplo, qual será o destino do El Doblete? Uma quase centenária bodega, estrategicamente localizada às margens do estádio, que em cinco meses e 17 dias morando a literais seis minutos de distância do Vicente Calderón vi seus fiéis frequentarem religiosamente o sacrossanto espaço antes de cada rodada.

Não tenho dúvidas que a torcida colchonera lotará e vibrará no Wanda Metropolitano, até porque essa hinchada lotaria qualquer estádio para assistir até torneio internacional de bocha, caso o Atlético estivesse em campo. Porém, relembrando, há coisas que são intransferíveis, intransponíveis e intransmissíveis. O que podemos garantir é que pelo menos no 11° verso do hino do clube a casa dos colchoneros sempre viverá “hoy me voy al manzanares, al estádio Vicente Calderón…”

Madri é uma cidade de clima mediterrâneo, quente e seca na primavera. No último jogo europeu no Calderón, de forma curiosa, chovia ininterruptamente. Como me atentou um querido amigo, talvez fosse apenas a cidade se revelando mais uma rojiblanca contrária à demolição.

Choramos juntas, Madri.

Aupa, Atléti!

* Rafaela Braga é estudante de administração, vascaína, rojiblanca e discípula de Lionel, o Messi



  • rafa

    Clube perde a identidade, até criar o espírito do antigo estádio vai tempo. Você citou o bar do Atleti e o que irá acontecer com ele daqui um tempo, em Green Street Hooligans, filme sobre o West Ham em vários momentos os torcedores estão em um bar perto do antigo estádio, que era um ponto de encontro dos torcedores, e como o West Ham mudou de casa, o bar vai fechar as portas.

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