Les Bleus: um documentário obrigatório sobre a seleção francesa



Existem diversos documentários esportivos brilhantes que retratam um episódio específico, em um espaço de tempo curto. São poucos os que conseguem fazer uma contextualização por um período maior e com paralelos sociais, políticos e culturais. É justamente esse o trunfo de “Les Bleus – Une autre histoire de France, 1996-2016”, que estreou no catálogo da Netflix.

Ao retratar os últimos 20 anos da seleção nacional, o documentário é uma aula sobre todas as divisões étnicas que espalham a França. Mostra a construção de uma equipe multiétnica que viria ser campeã do mundo em 1998 e da Eurocopa em 2000. Um time que sempre sofreu críticas, encobertas quando as vitórias e os títulos levavam todos os franceses, incluindo os de ascendência da África ou do Oriente Médio, às ruas. O patriotismo da seleção era questionado a todo o momento, como quando alguns jogadores não cantavam o hino ou após posicionamentos políticos de líderes do grupo.

O mito “negro-branco-árabe”, rótulo com fim político criado para retratar a seleção de um país multiétnico em paz, caiu por terra diante de tantas manifestações populares cobrando mais oportunidades a franceses filhos de imigrantes, segregados em periferias – uma pesquisa chegou a revelar que um francês com nome árabe tinha 5 vezes mais dificuldade de conseguir um trabalho.

Um episódio que marca esta divisão foi o amistoso realizado entre França e Argélia, em 2001, que acabou com torcedores argelinos invadindo o gramado antes do final do jogo, como se estivessem fincando a revolta em pleno gramado. E aí a relação é direta com Zinedine Zidane, francês de origem argelina, que carregou nas costas as glórias do inédito título mundial e foi absolvido pela nação após a cabeçada em Materazzi na final da Copa vencida pela Itália.

Vale demais também ouvir os relatos de Raymond Domenech (e de seus comandados), que comandou a França num período total de reconstrução (2004-2010) e se viu perdido durante uma rebelião de jogadores em plena Copa da África do Sul, após discutir com Anelka no vestiário e cortá-lo da delegação. Ou ainda as controvérsias após a chegada de Laurent Blanc, campeão como jogador em 1998 e que depois assumiu como técnico, flagrado numa reunião na Federação Francesa defendendo uma política de cotas que limitasse o número de jogadores com dupla cidadania atuando pela seleção nacional. E chega até Didier Deschamps, atual treinador e responsável por restabelecer a conexão entre seleção e torcida após a classificação dramática para a Copa no Brasil, em 2014.

Um ano antes de sediar a Eurocopa, a França, já presidida por François Hollande, se cobriu de medo após o ataque à equipe do jornal satírico Charlie Hebdo e por atentados simultâneos em Paris que resultaram na morte de 130 pessoas – ambos ocorridos em 2015 e reivindicados pelo Estado Islâmico. Um dos alvos pretendidos pelos terroristas era o Stade de France, justamente onde a seleção disputava um amistoso no dia da tragédia.

Nas vésperas da Eurocopa, uma nova polêmica dividiu o país. O atacante Benzema foi afastado devido a um caso de chantagem e extorsão envolvendo outro jogador da seleção e que acabou nos tribunais. Deschamps era contra o desligamento, mas foi voto vencido após reunião com a federação. Por ter ascendência argelina, personalidades de renome, como o ex-jogador Éric Cantona, levantaram suspeitas sobre a decisão. Durante um mês, o povo francês deixou tudo de lado para apenas torcer e teve sua festa interrompida apenas na final, quando a França foi derrotada por Portugal.

Imagens raras sobre os bastidores da seleção e depoimentos de jogadores, técnicos, jornalistas e políticos franceses enriquecem ainda mais este documentário. Em 20 anos, uma seleção que foi do céu ao inferno, sendo constantemente usada como ferramenta política, algo extremamente comum no mundo do futebol. Com uma das gerações mais talentosas dos últimos anos, a França se prepara para iniciar uma nova jornada, já com foco na próxima Copa do Mundo, na Rússia. Mas, diante de todo histórico, ainda é muito cedo para identificar o que estará por trás deste caminho.



  • Darcio Vieira

    eu vi o documentário. A questão política está presente a todo momento. E muitos políticos tentando lucrar tanto na vitória quanto na derrota. Fica

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