A extinção dos clássicos aos olhos de um futuro torcedor



Crédito: Gilvan de Souza/Flamengo

Crédito: Gilvan de Souza/Flamengo

– Pai, o que é clássico?
– Onde você leu isso?
– Nesta revista aqui que estava na garagem.
– Ih, filho. Isso é coisa muito antiga.
– Mas me explica.
– Isso é da época do seu avô.
– O vô tá dormido. Conta aí.
– Antes, quando você nem era nascido, chamavam de clássico sempre que os maiores rivais se enfrentavam.
– Mas eles ainda jogam um contra o outro…
– Você não entendeu. Era o jogo mais esperado do ano, as duas torcidas no mesmo estádio.
– Juntas?
– Dividindo as arquibancadas.
– Mas no mesmo dia?
– É, oras. Tudo na mesma hora, nos mesmos 90 minutos. Dois times, duas torcidas, faixas, bandeiras. Era fantástico.
– Era tudo liberado?
– Totalmente. Tinha torcida que fazia festa ao redor do estádio. Cantando, soltando fogos, percussão.
– Eles podiam andar ali normalmente?
– Podiam, mas aí um dia expulsaram todos eles. Interditaram as ruas, acabaram com a festa.
– E por que acabou esse tal de clássico?
– Por uma série de razões. Violência, briga entre dirigentes, tribunais. Simplesmente acabou.
– Mas os times ainda são rivais, não são?
– Até são, mas num jogo só vai uma torcida, no outro fecham os portões. Nas ruas, não tem ninguém. Só aquelas faixas isolando os espaços e os policiais vigiando fantasmas.
– E esses clássicos tinham nomes?
– Vários. Derby, Sansão, Gre-Nal, Ba-Vi, Fla-Flu
– Fla-Flu? Que nome engraçado.
– Um escritor chamado Nelson Rodrigues dizia que o Fla-Flu começou 40 minutos antes do nada.
– O que isso significa?
– Que não existia nada mais importante, que o clássico era algo que transcendia a própria existência.
– E agora o que seria?
– Passaram os 40 minutos e só sobrou o nada.
– Tem clássico neste domingo…
– Não, tem só um jogo. É totalmente diferente.
– Posso ficar com essa revista?
– Pode, mas vai lá acordar o seu avô.