Chapecoense: as velas acesas e os meninos descalços



As velas acesas. O vento intermitente. Os meninos descalços. Os heróis se foram (Foto: Nelson ALMEIDA / AFP)

As velas acesas. O vento intermitente. Os meninos descalços. Os heróis se foram (Foto: Nelson ALMEIDA / AFP)

Não serão as caixas-pretas a revelar o que sequer poderemos compreender. A tragédia com o avião da Chapecoense na Colômbia, que causou a morte de jogadores, funcionários, tripulantes, dirigentes e jornalistas, nunca caberá dentro de uma resposta.

De tempos em tempos, um time pequeno avança, outro de recursos limitados surpreende, ou ainda há aquele que consegue transformar o impossível em glória. São casos tão raros que não podem ser  esquecidos. Portuguesa, Inter de Limeira, São Caetano e, agora, era a vez da Chapecoense. E outras torcidas foram acompanhando mais de perto sua trajetória da Série D até a elite do futebol de forma tão rápida e organizada, culminando numa campanha histórica na Copa Sul-Americana.

Neste ano, boa parte do Brasil escolheu torcer pela Chapecoense. Nesta terça-feira, o país todo chorou por ela. As notícias logo nas primeiras horas do dia provocaram aquele choque capaz de paralisar até a lágrima num primeiro momento. Da arquibancada da Arena Condá, o sopro frio cortou a cidade em direção ao céu.

O esporte é uma coisa tão maluca que rapidamente o colocamos num patamar de importância que, muitas vezes, nem parece fazer tanto sentido. Não é só a paixão que nos leva a gritar pelas ruas, abraçar desconhecidos no estádio, deixar o bigode crescer até o título, catequizar filhos. Existe também o ideal do herói que chuta ou defende uma bola, corre em direção ao recorde, pilota o carro a 200 km por hora, nada em direção ao absurdo.

No futebol, o herói está escancarado na nossa frente. Ele é um defensor de sua paixão, alguém que está lá para fazer valer muitas crenças que você decide carregar pela vida. O atacante que marca o gol aos 48 do segundo tempo, o zagueiro que salva a bola em cima da linha, o goleiro que defende o pênalti. E que corre em direção à torcida e provoca uma das mais perfeitas simbioses que a natureza tem ciência.

As manifestações de solidariedade de clubes brasileiros e internacionais comovem e, ao mesmo tempo, reforçam o luto, redimensionam a tragédia. Um time sem seus homens. Uma nação deprimida. Um campo sem sorriso. Uma tristeza sem tempo regulamentar. Ainda cabe a esperança pela sobrevivência de três jogadores, que respiram mesmo de almas dilaceradas.

Hoje, 30 de novembro de 2016. Às vezes parece impossível, mas o amanhã sempre chega. Não há certezas além do sol, não há previsão para as feridas se fecharem. As velas acesas. O vento intermitente. Os meninos descalços. E todos buscando algum motivo para levantar os olhos e buscar um milagre que não virá. Os heróis se foram. Ficaram aqueles que jamais ousaram duvidar deles.



  • Vinícius Ramos

    Lindo texto. É uma dor que não passa…

  • omarvin

    Belo Texto … obrigado

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